segunda-feira, 8 de abril de 2013

António, o lavrador


António nasceu a 2 de Dezembro de 1929. Nesse ano e nesse mês, seria apresentado o projecto do Empire State Building, em Nova Iorque, que chegou a ser o prédio mais alto do mundo. Uma realidade tão afastada de António, que passaria a vida numa aldeia beirã, mais próximo da terra que das nuvens.

Fez a 4.ª classe e fez-se à vida. Um miúdo que cedo se tornou responsável por uma junta de bois. Paradoxais os bois: uns cornos que impõem distância e pulso firme; uns olhos de profunda doçura. Um miúdo  - no tempo em que os miúdos cedo deixavam de cheirar a leite - a comandar os passos de dois bois.

Nesta fotografia, António teria 17 anos. E não fazia ideia que viria a ter uma neta chamada Liliana, nem tão pouco saberia que era para ter duas netas gémeas, não fosse uma das prematuras partir instantes depois de ter nascido. Nem tão pouco imaginaria que depois viria um neto de nome Ricardo, nem tão pouco sonharia ainda que era com a Nair que iria casar e que do amor deles nasceria uma Branca. A Branquita que viria a casar também com um António.

E nem passaria pela cabeça de António que os tractores, na década de 1960, tornariam a virilidade dos bois uma qualidade obsoleta. Aos 17 anos, bastava-lhe saber que  tinha trabalho, que andar ao dia fora lhe rendia mil escudos e que ao anoitecer tinha água para lavar os dias e matar a sede aos bois. Bastava-lhe sentir-se homem. Um homem longe dos problemas de saúde que vieram rodear-lhe os passos. Partiu demasiado cedo. Morreu a 30 de Dezembro de 1995.

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