sexta-feira, 12 de abril de 2013

De Cabrum, a aldeia que já era







O único habitante de Cabrum, Viseu, rendeu-se ao peso do isolamento e, em Abril de 2009, decidiu abandonar a aldeia. Resistiu à mudança quatro anos e meio. A sombra da doença falou mais alto. Aquele lugar morrerá quando a memória se apagar. Retrato de um lugar entregue à erosão do tempo, numa reportagem publicada na extinta revista Nós, do jornal i, na edição Nós Rurais (2009), com fotografias de Humberto Almendra.



A ferrugem a corroer o homem da corneta montado a cavalo, imagem de marca dos CTT. Uma placa metálica como vestígio de um tempo em que ter telefone fixo era um luxo. Um pedaço de ironia erguido à entrada de uma aldeia em extinção. O cavalo, símbolo de rapidez, dá as boas-vindas a quem acaba de fazer três lentos quilómetros na sinuosidade de um caminho de terra batida. Não há placa a identificar Cabrum, lugarejo despovoado desde o dia 5 de Abril de 2009. Manuel Pontes, de 70 anos, foi um resistente. Durante quatro anos e meio foi o único habitante de Cabrum, na freguesia de Calde, Viseu.

Manuel Pontes fez sinal de rendição, ao comprar casa em Aguadalte, aldeia no concelho de Castro Daire que, daqui por um par de décadas, terá o mesmo destino que Cabrum. Não foi a solidão a fazê-lo desistir da terra que o viu nascer. Foi o medo de uma morte ao desamparo. Com o coração a dar sinais de cansaço e a próstata a denunciar a presença de doença, Manuel Pontes baixou os braços e deixou Cabrum entregue ao silvado. 

«Quando lá estava, as cabras roíam as ervas e as silvas», conta. Agora, cobras, lagartos e pássaros encontram abrigo na densidade da natureza. As amoras mirram, sem a colheita gulosa dos dedos da infância. Os javalis deixam por ali as suas marcas. Já se sabe que um lugar recatado e bonito é chamariz de enamorados. Por isso, aos domingos, alguns casais descem a picada da estrada florestal e procuram a paz de Cabrum para namoriscar.

Rodeada por mato e floresta, a aldeia tem vista para a serra. O rio, tapado pela vegetação, corre ao fundo. O moinho passou a moer o silêncio das ruínas. Os espigueiros vazios deixaram de esperar pela época das colheitas. A água do chafariz continua a correr, mesmo que já não haja vivalma para matar a sede, nem mulherio para lavar a roupa no tanque comunitário. Um espanta-espíritos permanece à porta de uma das moradias. A casa de Manuel conserva a antena parabólica. O televisor aliviava a solidão e alimentava a vontade de se manter informado. «Deito-me tarde. De novelas não quero saber, não valem nada, mas telejornais vejo».

Encontramos Manuel Pontes na modéstia da nova residência, em Aguadalte. Com o orgulho próprio de quem conseguiu poupar algum dinheiro conta que «se andasse na má vida, não comprava esta casa». Por má vida entenda-se estoirar a reforma em prostitutas de beira de estrada ou em copos de tinto. «A minha vida é água». Nem sempre foi assim. Manuel assume que «abusava do tintol». Mas, após a morte da mulher, que foi vítima de ataque cardíaco, apanhou um susto. E, para evitar que tivesse igual destino ao da esposa, cortou com a bebida. «O vinho aquecia-me, mas o vício não vale mais que o homem». Há 18 anos que está viúvo e abstémico.

Com a viuvez, Manuel não se sentiu atado à inércia. «Na tropa aprendi a cozinhar e a lavar roupa». E nunca teve medo de viver sozinho na aldeia, mesmo quando ouvia a desconfiança canina. «Quando o cão latia, saltava fora da cama». Mas, os latidos eram apenas por causa dos javalis. Manuel «dizia que estava armado, mas era mentira». Mentira defensiva, para evitar que ladrões e burlões se abeirassem dos bolsos dele.

Quase toda a vida deste homem foi passada em Cabrum, a amanhar as terras e a criar gado. Excluem-se os 30 meses que passou na guerra do Ultramar, em Angola, e os seis anos em que trabalhou numa fábrica na Alemanha, onde arranjou um bónus: duas hérnias. No regresso, para não fugir ao apelo agrícola, investiu o dinheiro em terrenos, gastou o corpo na agricultura. Quando precisava de ir a Viseu percorria quase 30 quilómetros a pé. Ou levantava-se às 5h00, para apanhar o autocarro às 7h30, em Almargem.

A mulher tinha 49 anos quando morreu. A descendência de ambos, um único rapaz, «já ganhava ao dia fora». Ficaram os dois por Cabrum, até o filho, «um solteirão de quarenta anos», decidir emigrar para a Suiça. Restou Manuel e um cão de caça. E a míngua de conversa.

Manuel diz-nos, com um jeito rude de falar, que o trabalho é o que lhe dá sentido aos dias. «Gosto de trabalhar! Hoje é que não. Vou fazer a barba e tomar banho». Quer assear-se, para, no dia seguinte, ir a uma consulta no Hospital de Viseu. Tem saudades de Cabrum. Mas recusou acompanhar-nos até à aldeia, para ser fotografado. Disse que, para ele, acabou a exposição mediática.

É lenta a morte de uma aldeia. Havia tempos em que, em Cabrum, o lume ardia e aquecia 14 lares. O rés-do-chão das casas era aquecido pelo bafo do gado. Com o tempo, as fogueiras foram-se tornando pachorrentas. Os mais novos, por via do casamento e do emprego, começaram a aquecer-se noutros cantos. Os mais velhos foram perdendo o fogo até ao gelo final dos corpos, entregues a sete palmos de terra. Há quatro anos [2005], na aldeia, ainda moravam três pessoas. Manuel, o filho e um vizinho. A aldeia enche apenas em Agosto, no dia da festa da Nossa Senhora da Boa Fé. Nessa altura, a fila de carros estacionados faz lembrar os carreiros das lagartas processionárias.

A pequena capela foi construída para cumprir uma promessa de um filho da terra emigrado no Brasil. Manuel Pontes, tio de Manuel Pontes, mandou erguer a ermida por ter ultrapassado alguns desaires da vida. A imagem de Nossa Senhora da Boa Fé foi levada para a Igreja de Póvoa de Calde, não fosse o abandono motivar os ladrões a surripiar a fé. Cabrum continua a ser vigiada pela imobilidade das imagens de Nossa Senhora e Santo António.

Chegamos a Cabrum, sozinhos. Sem cicerones. Ficamos de olhos postos nos despojos de rotinas idas. Os pássaros fazem-nos companhia. Até vermos, ao longe, uma silhueta masculina acompanhada por três cãezitos. Aproximamo-nos do homem que diz que Cabrum não é sítio para uma rapariga se aventurar sem companhia. Conta-nos que tinha ido ver umas colmeias no meio da serra e que passou pela aldeia para ver os castanheiros que se enchem de frutos. César Chaves, de 72 anos, nascido e criado em Cabrum, lembra que costumava visitar ali Manuel Pontes, para lhe aliviar a «fome de conversa». Agora, por vezes, visita a aldeia aos domingos, para apanhar ar puro. «Quando cá venho até me caem as lágrimas».

O nome da aldeia denuncia a base da economia local. Cabrum é mais que um adjectivo. Era um modo de vida. Todos os moradores - com ligações familiares entre si - tinham rebanhos. No total, chegou a haver por ali 50 a 60 cabras e cabritos. Os comerciantes de gado passavam por lá para fazer negócio. E os habitantes iam a pé vender os animais na feira de Viseu.

César Chaves recorda a meninice. Ia à escola a Calde e, no regresso, tratava de auxiliar os pais nas tarefas agrícolas. Fez a terceira classe e, só mais tarde, em Macau (onde esteve ao serviço da Marinha), é que completou a quarta. «Chegávamos aqui e não pegávamos nos livros. Era preciso trabalhar, andar com o gado, cascar milho. Agora não é assim, os miúdos de hoje são muito mimosos».

Para proteger os rendimentos familiares e para evitar uma sova pouco paternal, o César adolescente chegou a enfrentar um lobo. Rapazote, contrariou as indicações da mãe, que lhe disse para levar o rebanho a pastar num determinado sítio. César decidiu ir para outro lado. Os lobos apareceram. Um deles agarrou um cabrito e ele deu luta. Puxou o animal, mas a figura lupina levou a melhor: «O lobo arrancou a cabeça do cordeiro». Chegou a casa, com o que restava do animal. Ninguém o livrou da tareia.

O pai de César era caçador. Mas não se julgue que à mesa se colocava tudo o que se caçava. «Quando matava um coelho, comia-se cá em casa. Quando caçava perdizes, não se julgue que as comíamos! O meu pai ia vendê-las a Viseu, a casa de fidalgos». A diferença entre o coelho e a perdiz estava no valor comercial. A perdiz levava vantagem de dois escudos.

Em Cabrum não havia apenas fartura de gado, mas também de água, lenha e fruta. A aldeia era quase auto-suficiente. As mulheres até confeccionavam a roupa em linho ou burel.

Cabrum nunca foi prioridade para o poder político. Tão poucos habitantes não justificavam o investimento. «Os únicos benefícios que a junta fez cá foi a estrada em terra batida e o chafariz». A terra chegou a ter uma taberna, onde se vendiam alguns bens essenciais. Mas o número reduzido de moradores não chegava para o comerciante ter lucro.

Muitos dos moradores da aldeia, já falecidos, nunca conheceram outro chão. «Houve pessoas, como a minha mãe, que nunca saíram daqui. Nasceram aqui, criaram-se aqui, casaram aqui e trabalharam sempre aqui, na agricultura». Não foi o caso de César, que saiu de Cabrum aos 20 anos, para ir para a Marinha. Mais tarde casou com uma mulher de Calde e foi morar para Lisboa, onde trabalhou 30 anos, como motorista da Carris. Quando se reformou, regressou à freguesia, para morar na terra da esposa. «Se Cabrum tivesse condições, preferia viver aqui».

César lembra os primeiros passos que deu, quando saiu de Cabrum. Não podia abandonar a aldeia descalço. «Em 1957, quando fui para a Marinha, disse ao meu pai: ‘Então, vou com os sapatos todos remendados?’» Não queria fazer má figura. Por isso, se não havia dinheiro no bolso, havia que apurá-lo. Foi graças ao actual presidente da câmara de Gondomar, natural de Calde, que César comprou calçado novo. «Fui cortar pinheiros à mata e fui vender a lenha, por 80 escudos, ao Valentim Loureiro. E comprei os sapatos por 80 escudos».

Naqueles tempos, ai de quem caísse à cama doente. Ir ao médico era uma empreitada que exigia fôlego. «O doente para ir de táxi para Viseu, tinha de ir até Almargem de carro de bois, aos solavancos». O transporte de defuntos não era tarefa mais simples. Os caixões eram transportados aos ombros de quatro homens, a pé, pelo meio da floresta, até ao cemitério de Calde.

César Chaves recorda-se de quando, ainda miúdo, partiu uma perna e teve de estar hospitalizado. Para regressar a casa, de perna engessada, veio montado num burro, pertença de um tio. «No caminho, o burro viu cavalos a relinchar, assustou-se e atirou-me ao chão». Nas redondezas andavam lavradores que se prontificaram para o levar à aldeia, deitado num carro de bois. Por sorte, a perna não sofreu danos de maior. Os tempos são outros e agora César, quando quer alimentar a memória, vai a Cabrum de moto 4. Este homem continua a teimar em não deixar que a aldeia esvaeça da sua vida.

Mas, em Cabrum, o tempo não pára. Um dia o granito das casas não será mais que arqueologia de um viver rural. Houve tempos em que as horas não andavam no pulso dos moradores. Um único relógio orientava os dias da aldeia. Há anos, o relógio de sol, incrustado na fachada da casa do ti Agostinho e da tia Patrocínia, desapareceu. Como os donos. A aldeia entrou na hora da morte. 

1 comentário:

  1. A aldeia de cabrum vive de novo. Tem novos habitantes e até já lá nasceu uma criança.

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