quarta-feira, 17 de abril de 2013

Do bisavô que foi lição de vida


Quando penso no que é isso de ser beirão, lembro-me de granito, socalcos, serras e rios. Lembro-me de vinhas, pinhais e musgo, oliveiras e campos verdes ou dourados. Lembro-me de melros, corvos, mimosas, geada, granizo, lareiras e grilos.

 Lembro-me do ex-líbris de Aquilino Ribeiro: «Alcança quem não cansa». Lembro-me do meu bisavô, o senhor Coelho (ou 'Sacoelho', a forma abreviada e carinhosa de o chamar).

Quando o Miguel Horta fez este desenho do meu bisavô, este tinha 94 anos e um imenso gosto pela vida. Trabalhava todos os dias, no campo. E domingo que era domingo, era para ser passado a conviver com os (cada vez menos) colegas. Ao domingo era certinho que, ao fim de almoço, pedia a alguém cá de casa para o levar até à associação recreativa e cultural para conviver.

 Penso no que é isso de ser beirão e penso no temperamento do meu bisavô. Teimoso, trabalhador, franzino de corpo e teso de espírito, com um certo ar trocista. Guloso, muito guloso, para os doces excedia «a medida do estômago». E resiliente. Muito resiliente. Só com muita resiliência se sobrevive à morte da mulher, à morte da filha, à queda de uma oliveira com uma altura considerável. Hoje compreendo-o bem, demasiado bem. A soma dos nossos, tão nossos, mortos dá-nos ainda mais vontade de vida.

 Quando penso nisso de ser beirão, penso no meu bisavô e de uma certa reza contra o mau olhado, que ele mencionava: «Eu sou de ferro/ tu és de aço/ o que me desejares/ que te caia no regaço». O meu bisavô não falava em morrer, evitava ir a funerais. Queria chegar aos 100 anos. Com lucidez e genica, tinha orgulho na quantidade de anos que lhe desenhava as rugas. Só aos 99 anos começou a dizer, com uma serenidade desconcertante, que quando morresse não deixaria «soidades»: «Os velhos quando morrem não deixam 'soidades', os novos sim». Eu soube que ele não duraria muito, quando, num domingo ao fim de almoço, ele apontou para mim e disse que eu tinha os cabelos a arder. A lucidez começava a desampará-lo. Nesse dia, com os olhos no vazio, apontava para um horizonte desconhecido, fazia gestos como quem dava comida às galinhas.

No dia seguinte, morreu, ao fim de almoço, no lugar preferido dele: sentado no sofá azul da cozinha, junto à lareira. Morreu aos 99 anos, comigo ao pé dele. Comigo a chamá-lo, sabendo que ele já ali não estava. O que ali ainda estava era um corpo a respirar ruidosamente. Sim, naquele dia eu tive a certeza do que era isso de ser resiliente. E vi em mim um pedaço do meu bisavô. Sim, sou beirã.

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