terça-feira, 23 de abril de 2013

Do grupo de teatro que impediu a desertificação de uma aldeia no Montemuro






"Se não existisse Teatro Regional da Serra de Montemuro, nenhum de nós estaria na aldeia. O mais certo seria estarmos em Lisboa"
O certo é que estão em Montemuro

O que fazer quando se vive numa aldeia perdida na serrania, sem perspectivas de trabalho, além da agricultura? Fugir para o litoral, emigrar? Não. Resposta certa: criar uma microempresa cultural. Teatro Regional da Serra de Montemuro é uma companhia que desafia as limitações geográficas e faz do provincianismo uma mais valia. 

Uma reportagem que fiz para a extinta revista Nós do jornal i, na edição Nós Provincianos (2009), com fotografias de Humberto Almendra.


O uivo dos lobos aninhou-se no granito do silêncio. Na paisagem instalou-se o silvo dos aerogeradores, com hélices em constante rotação. Na Serra de Montemuro existem mais parques eólicos a produzir energia eléctrica que alcateias a alimentar a superstição do povo. A pastorícia minguou, a comunidade de javalis cresceu, o alcatrão alastrou e, à conta dos projectos de energia eólica, rasgaram-se novos caminhos na serra. Em permanência, a beleza agreste e a teimosia de quem vê no termo "provinciano" um elogio e não desdém.

Em Campo Benfeito, aldeia do concelho de Castro Daire, Viseu, a população não vive do ar, nem da contemplação. Os agricultores sobrevivem da venda do feno. Os reformados, se as forças não lhes faltarem, dedicam os gestos ao cultivo da horta. Neste recanto serrano, o lobo é o símbolo de resistência de uma micro-empresa que conseguiu impedir a desertificação de uma aldeia enrugada. O Teatro Regional da Serra de Montemuro (TRSM) não é apenas mais um grupo teatral profissional, é um exemplo de como, na província, a criação artística pode estancar o fluxo migratório.

Um grupo de apaixonados pelas artes do espectáculo uniu-se em torno da ideia de teatro regional voltado para o mundo. Alguém os chamou de "performers da ruralidade" e o título assenta-lhes bem. "Se não existisse Teatro Regional da Serra de Montemuro, nenhum de nós estaria na aldeia. O mais certo seria estar em Lisboa", diz Eduardo Correia, actor e director artístico daquela companhia. «A aldeia estaria mesmo muito envelhecida e não sei se, neste momento, haveria cá crianças». Num total de 65 habitantes, 12 são crianças. Pequenada essa que, ao contrário de Eduardo, desconhece um uivo de lobo. Foi na meninice que o director do TRSM pôs os olhos em figuras lupinas: «Estava dormir no monte e ouvi pedras a cair; olhei e vi que eram lobos a saltar».

Longe vão os tempos em que, na travessia do maciço de Montemuro, os almocreves, montados em mulas ou cavalos, levavam sempre uma oração, nas albardas da fé e do medo: «Vem-te com Deus meu claro dia. Eu entrego-me a Deus e à Virgem Maria. A Senhora do Monte do Calvário que nos livre de cão danado, e por danar, e que nos livre dos maus encontros e dos meus inimigos. Pai Nosso e Ave Maria». O supersticioso temor ao lobo a atravessar dias longínquos, dias muito arredados da actual A24, auto-estrada que liga Viseu a Chaves e que veio alterar o conceito de isolamento. Por estes lados, a interioridade ainda pesa, mas mais nos meses de invernia, subjugados aos nevões e ao congelamento da água nas tubagens.

Jorge Ventura, autor de Estórias do Lobo na Serra de Montemuro, recolheu relatos que evidenciam que, noutros tempos, para minorar os prejuízos que a fome lupina impunha aos aldeões, a população montava armadilhas. Uma vez apanhado, o lobo era posto numa padiola e exibido, vivo, na aldeia. Em virtude da captura e em sinal de agradecimento, as pessoas depositavam esmolas nas mãos dos caçadores.

Estórias como esta alimentam a inspiração do TRSM. Em O Anjo do Montemuro, um dos cinco espectáculos em cena, há alusão ao destino do lobo capturado. Mas, nessa criação, a presença lupina foi substituída por uma figura angelical.

A dramaturgia d’ O Anjo do Montemuro remete para o terramoto de 1755. O rugido do mar, o abatimento de Lisboa. O fedor a decomposição. Uma figura branca caminha, sobe a serra, em busca do local onde acaba a terra e começa o abismo. Um velho pastor encontra um anjo em mágoa, com grandes feridas nas costas. As asas arrancadas. Uma jaula com rodas. O anjo é aprisionado e exibido a troco de cinco réis. «Venham ver, venham ver. Uma moeda para ver o Anjo do Montemuro». »Na roda, na roda, ponham o dinheiro na roda», cantam os saltimbancos, em palco.

É com o espírito nómada do saltimbanco que a equipa do Teatro do Montemuro mantém as raízes. Foi este o caminho escolhido pelos seis elementos: Eduardo Correia, Paula Teixeira (produtora e assessora de imprensa), Paulo Duarte (director técnico e actor), Abel Duarte (director de cena e actor) Carlos Cal (coordenador de construção de cenários, obras e manutenção do espaço) e Susana Duarte (assistente de produção). As criações são apresentadas de Norte a Sul, dentro e fora da Europa (Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Inglaterra, Luxemburgo e Brasil). Em Portugal, tanto podem actuar num salão paroquial na Serra do Gerês, como na Culturgest ou no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Findos os espectáculos, regressam a casa, em Campo Benfeito, para cuidarem dos afectos, das hortas e de novas criações artísticas.

O grupo começou por ter a sede no Salão Paroquial do Fojo (mais uma referência ao "cão danado", já que fojo era o nome dado a um fosso que se abria e tapava com giestas, com o intuito de capturar lobos). O objectivo inicial do TRSM era animar os serões de Inverno da comunidade. Em 2002, foi construída a actual sede, o Espaço Montemuro, que teve honras de visita presidencial, com Jorge Sampaio a inaugurar o edifício.

Curiosamente, esta companhia de província estreou-se em Inglaterra - sob o impulso profissional de um actor e encenador inglês, Graeme Pulleyn -, com a peça bilingue Wolf/Lobo. Depois de finalizar um curso de teatro e artes dramáticas, Graeme Pulleyn encontrou, em Castro Daire, a possibilidade de criar teatro em locais alternativos. O encenador sentiu-se atraído pela possibilidade de construir um projecto com identidade própria. A «energia e entrega» dos actores de Campo Benfeito motivaram-no a instalar-se na aldeia vizinha do Rossão. O casamento com uma filha da terra estreitou os laços do britânico com aquela comunidade. Graeme tornou-se o rosto do grupo de teatro.

O TRSM foi criado em 1990, em ambiente de volatilidade. «As pessoas foram saindo, por razões profissionais. Eu continuei com o Graeme», recorda Eduardo. Os dois começaram por criar espectáculos de palhaços, a pedido do INATEL. Ao longo de quatro anos, fizeram intercâmbio com muitas pessoas, incluindo estrangeiros. Houve muita formação e residências artísticas. Wolf/Lobo resultou de uma co-produção entre o TRSM e uma companhia inglesa. Após a apresentação, nos arredores da cidade de Birmingham, o Teatro de Montemuro recebeu um convite da companhia Trigo Limpo/teatro ACERT, de Tondela, para participarem no FINTA- Festival Internacional de Teatro ACERT. Um crítico de teatro, presente no certame, gostou de Wolf/Lobo e uma «boa crítica» num jornal nacional abriu portas ao reconhecimento.

Em 1995, com a aprovação da primeira candidatura a apoios do Estado, o TRSM assumiu-se como companhia profissional. Actualmente [2009], a micro-estrutura recebe um apoio quadrianual, do Ministério da Cultura, de 294.700 euros.

Quando, em 2004, Graeme Pulleyn oficializou a saída da companhia, Eduardo ficou «assustado». Afinal, Graeme era a imagem do TRSM. Mas o encenador inglês ansiava por novas paisagens geográficas e artísticas e, ao fim de 15 anos a viver no Rossão, decidiu mudar-se para a cidade de Viseu. Não houve um corte radical porque continua a trabalhar pontualmente com o TRSM. A companhia sobreviveu. E reforçou a auto-confiança.

A equipa do TRSM empenhou-se, desde o início, em desmistificar, na aldeia, a ideia de que um actor era um diletante preguiçoso. Por isso, é cumprido um horário de trabalho: das 09h30 às 18h00. «Isso veio credibilizar o nosso trabalho aqui na aldeia», explicita Eduardo Correia. «Todos vimos de trabalhar as terras», exprime. E, por essa razão, não quiseram que os conterrâneos os rotulassem de mandriões. «Os primeiros tempos foram muito difíceis, não tínhamos dinheiro e pedíamos ajuda à família para poder fazer uma digressão». «Ganhava mais dinheiro quando fazia espectáculos de palhaços; era 20 contos [100 euros] por espectáculo», recorda Eduardo. Nunca pensaram em desistir do teatro. Embora, «numa fase inicial, achássemos que o Teatro de Montemuro seria uma coisa efémera».

Eduardo nunca se cansa de Campo Benfeito, por duas razões: anda constantemente em digressão e, quando poisa na aldeia, o seu temperamento activo faz com que a acção espante o tédio ou isolamento. Mas não é qualquer actor que encaixa no ambiente serrano. «As audições que fazemos não são tanto para avaliar as capacidades artísticas dos actores, mas um modo de perceber se eles se adaptarão a este meio». O actor que integre um projecto do TRSM tem de ter flexibilidade de espírito para passar meses em criação, na aldeia.

O estilo de representação de Abel, Eduardo e Paulo caracteriza-se por interpretações que implicam grande desgaste físico e emocional. O que singulariza o TRSM, no entender de Eduardo Correia, é o facto de tratar-se de um «teatro genuíno»: «As pessoas acreditam muito nas personagens e, em termos de trabalho, há rigor, disciplina, raramente chegamos atrasados, temos boa disposição e humildade». «Fomos habituados a fazer tudo, a não termos medo do trabalho duro», aponta Eduardo. E isso é notório. Ao chegarmos ao Espaço Montemuro, vemos Abel a arrancar ervas no exterior. No interior, os restantes elementos desdobram-se em obras de adaptação do espaço, para o festival que se aproxima.

Duas vezes por ano, a companhia aposta em formação. Porque não há nada de pior, para eles, que sentirem que um espectáculo não resulta. Já lhes aconteceu. E notam que não funciona quando, em digressão, sentem que «o espectáculo não cresce, que não se consegue melhorar». «Temos plena consciência do que somos e temos noção de queremos aprender mais», sublinha Eduardo. Por saberem que são actores por «instinto e verdade», gostam de sentir o espartilho da técnica. Por isso, reconhecem a importância de trabalhar com criadores que os ponham à prova. Nuno Pino Custódio, encenador especialista na técnica da máscara, obrigou os actores do TRSM «a uma maior rigidez técnica». «Acho que fez de nós melhores actores», nota Eduardo.

Há 12 anos surgiu o Altitudes, festival de teatro que a companhia realiza em Agosto, altura do ano em que a população triplica, com a chegada dos emigrantes. Começou por ser apenas um encontro de final de tarde, na aldeia. Como correu bem e como o TRSM já tinha uma rede de contactos com outras companhias, apostaram na realização de um festival em regime de intercâmbio: ora dá cá um espectáculo da tua companhia, ora toma lá outro da minha. Agora, o festival tem um orçamento próprio e deixou de haver troca de borlas.

Nas primeiras edições, o público era o de Campo Benfeito e Rossão. Aos poucos, foi alargando. Até que conquistou visitantes muito heterogéneos; tanto aparece o velhinho da aldeia, o emigrante que vem à terra, como o jovem cosmopolita que decide acampar e que se divide entre dois festivais: o Altitudes e o Andanças, em S. Pedro do Sul. Para além dos espectáculos, o Altitudes organiza vários ateliês, para que os visitantes se mantenham ocupados durante o dia.

Quem também costuma participar no Altitudes, fazendo passagem de modelos ou promovendo ateliês, são as Capuchinhas, uma cooperativa que se dedica à criação de peças de burel, linho e lã. Com a ajuda criativa de uma estilista e com a sabedoria de manusear o tear, esta micro-empresa permitiu a seis mulheres, entre os 30 e os 66 anos, uma fonte de rendimento sem obrigar a sair da aldeia. O trabalho destas mulheres foi reconhecido internacionalmente, com a atribuição do Prémio Criatividade para Mulheres em Mundo Rural, criado pela Women’s World Summit Foundation.

As Capuchinhas instalaram-se na antiga escola primária de Campo Benfeito, onde produzem as peças desenhadas pela estilista Paula Caria e concebem ainda, com frequência, figurinos para o Teatro de Montemuro. Engrácia Félix, casada com o actor Paulo Duarte, terminou o 12.º ano e decidiu aprender a costurar com a mãe. As Capuchinhas possibilitaram-lhe a permanência na aldeia. «Não ganhamos muito, tiramos o salário mínimo, mas estamos na nossa terra», diz Engrácia. Esta mulher, bem-disposta, refere que a única diferença entre morar ali ou numa cidade é «que se ouve menos barulho e se vê menos pessoas». Prefere notar as vantagens: «Temos coisas mais saudáveis, cultivamos a horta, as couves, as batatas». Eduardo Correia completa que «não há desemprego na aldeia e vive-se muito bem».

Eduardo, casado com São, tem duas filhas gémeas, de três anos. As miúdas, segundo o pai, não falam noutra coisa que não seja o teatro. «As minhas filhas vêm ver os espectáculos, sossegadas, desde muito pequenas; mas todas as crianças da aldeia vêm». E se na lenda sobre a fundação da cidade de Roma, os gémeos Rómulo e Remo sobreviveram graças a uma loba que os amamentou, em Campo Benfeito, os filhos da terra alimentam o espírito graças à companhia do lobo da representação.

São provincianos os actores do Montemuro? São, sim senhor, com todo o gosto. «Somos, no sentido em que usamos o que temos para proveito criativo». «Acima de tudo somos contadores de estórias e se gostamos de as contar à nossa maneira, isso é positivo». «Temos todas as condições para fazer os melhores espectáculos do mundo; estarmos na serra não é desculpa», vinca Eduardo Correia. E nós não os vamos desculpar. 

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