sexta-feira, 10 de maio de 2013

Da ruína de um Monumento Nacional




  Ceci n'est pas une maison. C'est la mémoire de Aristides en ruine.

 Isto não é apenas uma casa, que se foi esvaziando de gestos, risos e choros, de calor e humidade, janelas a abrir ou portas a bater. A Casal do Passal  não é só uma residência que se foi despovoando de respiração e cartas no correio. Isto é a parte material que resta para lembrar, de forma afectiva, a vida de Aristides de Sousa Mendes. Isto um dia vai cair e será menos uma peça - uma peça fulcral - para lembrar, aos mais novos e aos mais desmemoriados, que, na aldeia de Cabanas de Viriato, em 1885, no seio de uma família da aristocracia rural, nasceu um homem de gestos heróicos.

Aristides de Sousa Mendes haveria de tornar-se diplomata e, na qualidade de cônsul de Bordéus, viria a livrar milhares de pessoas do Holocausto. Desobedecendo às ordens de António de Oliveira Salazar - que queria que Portugal mantivesse a neutralidade durante a II Guerra Mundial  -, Aristides acabou por atribuir cerca de 30 mil vistos de entrada em Portugal a refugiados, de todas as nacionalidades, que quiseram fugir de França em 1940. 

Pela desobediência, aquele que é chamado de "Schindler português" acabou por ser inibido de continuar a desempenhar as funções de diplomata e perdeu ainda o direito de exercer a profissão de advogado. A solidariedade da comunidade judaica em Lisboa foi determinante para ajudar alguns dos 14 filhos de Aristides a emigrarem e estudarem nos Estados Unidos. 

Aristides acabou por morrer na pobreza, a 3 de Abril de 1954, no hospital dos franciscanos em Lisboa. Despojado de fato próprio, acabou mesmo por ser enterrado com um hábito franciscano. 

É também num estado de 'pobreza franciscana' que a Casa do Passal, classificada como Monumento Nacional,  vai  perdendo as forças. Sem contributos expressivos por parte do Estado, a Fundação Aristides de Sousa Mendes nunca conseguiu angariar dinheiro suficiente para preservar o edifício. Meio milhão de euros impediriam que este palacete caísse de joelhos. 

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